Quanto você precisa TER para SER? Como é sua relação com o dinheiro?

August 1, 2017

 

Ao longo dos processos de coaching é comum em algumas das sessões adentramos na questão financeira. Isso porque, muitas vezes,  o que impede uma mudança de vida e carreira são crenças equivocadas em relação ao dinheiro. Nossa relação com o dinheiro é permeada por diversos sentimentos: culpa, vergonha, medo, orgulho e inveja. Maturidade financeira significa resolver todo conflito interno ligado a dinheiro.

            Na atualidade, as pessoas começaram a perceber que apenas o desenvolvimento material e a prosperidade financeira não “dão conta” dos nossos anseios mais profundos. Afinal como dizia Viktor Frankl: “As pessoas têm o suficiente com o que viver, mas não têm nada por que viver; têm os meios, mas não têm o sentido.” O desenvolvimento financeiro quando não acompanhado do desenvolvimento humano pode ser desastroso.

            O dinheiro permeia todas as etapas das nossas vidas. Ele é uma força que influencia a maioria das decisões que tomamos.  Existe uma forte ligação entre o dinheiro e nossos valores. Isso é tão verdade que quando queremos identificar os valores de uma pessoa investigamos onde ela coloca seu tempo e seu dinheiro. É possível entender muito de um individuo quando observamos a forma como ele ganha, gasta e doa seu dinheiro.

            A antroposofia ao abordar o ciclo biográfico e as crises que surgem em cada setênio nos mostra que por volta dos 33 anos temos a crise do TER X SER.  Geralmente, até os 33 anos nos preocupamos muito em conquistar “as coisas”: fazer uma boa faculdade, uma pós graduação, comprar um carro, um apartamento e por ai vai.  Todavia, por volta dos 33 anos uma luz vermelha começa a acender no painel de controle para sinalizar que talvez seja a hora de uma revisão. Esse é um primeiro sinal de que precisamos mudar do modo TER para o modo SER.

            Tanis Heliwell em seu livro  “Trabalhando com Alma” nos mostra que somos indivíduos compostos por uma personalidade dotada de alma.  A personalidade é quem desenvolve o TER. Ela busca status, certificados, dinheiro e outras coisas. Não podemos tratar a personalidade como a vilã da história. Afinal, ela é a base que nos foi dada para sustentar a alma. Afinal, como posso seguir meu propósito de vida sem condições financeiras para dar conta dele?  O grande perigo é que algumas pessoas nutrem a personalidade e esquecem da alma. E é a alma que nutre o nosso SER, afirma nossos valores e expressa quem somos para o mundo.

            Enfim, nossa relação com dinheiro é tão complexa que não faltam livros sobre o assunto. Nilton Bonder em sua obra “Ter ou não ter: eis a questão!” nos mostra o dilema constante da posse: o que ter e o que não ter! O mal não é ter, mas a ausência do dilema de possuir ou não. Assim, tão importante quanto escolher o que temos é também escolhermos o que não queremos ter. Por exemplo, sei que poderia ter maior sucesso financeiro se estivesse seguindo carreira na área de marketing de uma multinacional, contudo isso não nutre o meu SER.  A vida que construí como educadora, coaching, consultora e mãe proporcionam o propósito e liberdade que nutrem meu ser. E nessa jornada precisei buscar o meu ponto de equilibrio, ou seja, quanto eu precisava ter financeiramente para sustentar os anseios mais profundos do meu ser. Vejo na modernidade uma certa ilusão em viver apenas "de propósito", sem considerar que muitas vezes precisamos executar trabalhos e projetos que não são tão repletos de sentido (mas, que também não vão contra nossos valores, isso seria se "prostituir" em termos laborais), contudo nos dão uma base para caminharmos nessa jornada em busca de sentido. 

             Bonder resgata a Ética dos Ancestrais (Pirkei Avot) que mostra quatro tipos de indivíduos. Aqueles que dizem:
1) “O que é meu, é meu, e o que é teu, é meu”. 
2) “O que é meu é meu, e o que é teu, é teu”.
3) “O que é meu, é teu, e o que é teu, é meu”.
4) “O que é meu, é teu, e o que é teu, é teu”.

               Nossa tarefa evolutiva em relação ao dinheiro é migrar do estágio para o estágio 4.

 

            Outro pesquisador que tratou do tema do dinheiro foi George Kinder, consultor financeiro formado na Harvard e autor do livro: “Seven Stages of money Maturity”. Kinder classifica os seguintes estágios da nossa relação com o dinheiro:

  • Estágio 1 (Inocência). Para um recém-nascido, o dinheiro não tem significado nenhum. Aqui desenvolvemos as nossas crenças que vêm de berço. Em geral, são herdadas de pai para filho de forma muito sútil. Você já parou para pensar nas frases que ouvia em casa em relação ao dinheiro?

  • Estágio 2 (Dor). É quando descobrimos que para ganhar dinheiro é preciso trabalhar ou que o mundo é cheio de desigualdades sociais e financeiras. Seria como a "queda do paraíso" do ciclo biográfico de Rudolf Steiner. Quando começamos a perceber que temos que "ganhar dinheiro com o suor do nosso rosto".

  • Estágio 3 (Razão) É um processo de três etapas: identificação de metas, inventário dos recursos disponíveis para a conquista dos seus objetivos e escolha do caminho que leve dos recursos às metas.

  • Estágio 4  (Sensibilidade). É a sensibilidade que ensina o indivíduo a manter a calma e a paz de espírito em meio à turbulência, a ansiedade e ao estresse que emanam de situações que envolvem dinheiro.

  • Estágio 5  (Vigor).  Vigor, em síntese, é descobrir o propósito da vida e voltar toda energia para essa meta.

  • Estágio 6 (Visão). Visão é entender que cada um de nós é responsável por tudo o que existe no planeta. Graças à visão, o individuo percebe que o dinheiro é um mero caminho para a manifestação da alma no universo. Nesse estágio, nada obstrui o caminho entre o que somos e o que desejamos ser.

  • Estágio 7 (Generosidade). Ao colocar em prática o preceito da generosidade e da sabedoria, a pessoa dá sem esperar nada em troca. Nesse estágio, é possível agir em benefício do próximo com a generosidade que existe dentro de cada um e que está ali, à espera da oportunidade de ser manifestada externamente. É o ponto em que percebemos que nada é realmente nosso, mas uma dádiva a ser partilhada com o próximo.

 

O perigo é que vivemos numa sociedade que simplesmente associou certas recompensas emocionais à aquisição de bens materiais. E no fundo, não queremos os bens materiais, mas sim propósito e sentido que são atribuídos a eles. Um contra movimento vem surgindo, o manifesto da simplicidade voluntária, no qual as pessoas perceberam que quantos menos coisas elas possuem, mais liberdade elas têm.

 

Por fim, fecho com uma citação John Armstrong: "A tarefa da vida é transformar esforços e atividades que valem inerentemente a pena em posses e experiências que são em si de valor perene e verdadeiro. Esse é o ciclo ideal do dinheiro." Ou seja, o dinheiro é envolve uma dimensão interna e externa do indivíduo. Interna quando dedicamos nossa vontade e esforços em algo com propósito e externa quando usamos essa recompensa do nosso trabalho com aquisições alinhadas aos nossos valores e que nos levam em direção a quem realmente desejamos ser.

 

OBSERVAÇÕES

  • Apenas a titulo de curiosidade, escrevi esse post durante as minhas férias no sítio no sul de Minas Gerais. Essa experiência de viver parte da semana em São Paulo e parte no sitio tem me ensinado muito nessa relação Ter X Ser. São Paulo é uma cidade que nos remete ao TER a todo momento, aqui temos os melhores cursos, programas, empregos, restaurantes...Aqui a vida nos consome no tempo do relógio (cronos). A agenda e as notificações do celular tocam a todo momento. A todo momento parece vir uma mensagem que preciso ter mais alguma coisa. Aqui as relações são mais comerciais. Estar no sitio, no meio das montanhas, sou chamada ao SER a todo momento, permitir-se parar, ficar sem fazer nada, contemplar a natureza, observar os ciclos das plantações, colher as verduras da horta, coletar os ovos da galinha,... Aqui minha filha Clara se diverte sem ter uma programação de férias, cada dia é uma surpresa e experiência nova que a natureza a convida a conhecer. Aqui vivemos apenas o estar presente, o tempo no ritmo Kairós. No sitio, o celular quase não pega, esqueço qual dia da semana estou e durmo e acordo com base na luz do sol. Aqui a sensação que surge é que o que eu tenho me basta. Aqui as relações são mais essenciais.E assim segue a vida entre o paradoxo do ter e ser.

  • A relação com o dinheiro é algo que surge de forma tão incisiva nos processos de coaching que no Programa Projeto de Vida com Sentido desenhei um módulo dedicado a essa temática, no qual o individuo traça a sua biografia do dinheiro e também construi uma planilha Ter X Ser. Saiba mais, clique aqui.

                E ai, já parou para pensar quanto você precisa TER para SER?

     

     

     

         

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