De dentro para fora: nosso agir no mundo

August 11, 2015

Como nos construímos? De fora para dentro? Ou de dentro para fora?

Por meio da ação ou da reflexão?

 

 

 

Talvez as respostas para essas perguntas não se encontram dentro das polaridades que compõem o pensamento binário, do isso OU aquilo. E sim, dentro do pensamento trimembrado, do isso E aquilo. Algo mais próximo do caminho do meio proposto por Aristóteles e São Bento.

 

Nosso caminho moderno é marcado pela ação. Nos dias atuais, viver é sinônimo de fazer algo, de agir, de estar em movimento. Na cultura do negócio (negar o ócio), ficar parado é proibido. Apesar de não podermos negar todos os avanços que a cultura do “fazer” nos trouxe, o que fica evidente é a atual crise de sentido. No geral, as pessoas têm o suficiente com o que viver, mas não tem nada por que viver; têm os meios, mas não tem sentido.

 

Segundo Viktor Frankl, psiquiatra fundador da logoterapia, o vazio existencial e a falta de sentido surgem de dois movimentos: o conformismo e o totalitarismo. O conformismo é quando fazemos algo porque todo mundo faz. É algo, como a normose, a doença da normalidade. Sentimos que não é aquilo que gostaríamos de fazer, mas entramos no piloto automático e seguimos assim. E o totalitarismo, é quando fazemos algo porque os outros nos mandam fazer. Quantas pessoas escolhem carreiras por influência de seus pais, do mercado e de outras variáveis externas?

 

O ponto é que quando somos orientados de fora para dentro, ou seja quando as externalidades conduzem nossas ações, existe o risco da falta de sentido. Ao agirmos de fora para dentro, buscamos referências e modelos externos. O grande perigo desse caminho é viver uma vida agradável aos olhos dos outros e miserável para si próprio. Soren Kierkegaard dizia que “a mais profunda forma de desespero é escolher ser outro que não si mesmo.”

 

A forma como Jung, pai da psicologia analítica, detalhou a mente humana, pode nos ajudar a compreender melhor a relação de dentro para fora e de fora para dentro. Para Jung, o ego é o centro da consciência e um dos maiores arquétipos da personalidade. Ele fornece um sentido de consistência e direção em nossas vidas conscientes. Há também a persona: forma pela qual nos apresentamos ao mundo. Por meio da persona nós nos relacionamos com os outros. A persona inclui nossos papéis sociais, o tipo de roupa que escolhemos usar e nosso estilo de expressão pessoal. O termo persona é derivado da palavra latina equivalente a máscara. O problema é que uma persona dominante pode abafar o indivíduo e aqueles que se identificam com sua persona tendem a se ver apenas nos termos superficiais de seus papéis sociais e de sua fachada. Temos também o conceito de sombra representando aquilo que consideramos inferior em nossa personalidade e também aquilo que negligenciamos e nunca desenvolvemos em nós mesmos. E por fim, Jung chamou o Si Mesmo (ou self) de arquétipo central, arquétipo da ordem e totalidade da personalidade. O Si Mesmo representa o objetivo do homem inteiro, a saber, a realização de sua totalidade e de sua individualidade.

Assim, quando agimos de dentro para fora somos impulsionados pelo self, quando agimos de fora para dentro somos condicionados pela persona. Para Jung, todo indivíduo possui uma tendência para a individuação, o que significa tornar-se um ser único, homogêneo e singular. Frankl também dizia que o homem tem seu caráter único e irrepetível. E exercer esse papel singular ajuda a nos preencher de sentido. Segundo o sábio indiano Sri Ramana Maharshi, o que nos faz encontrarmos nosso próprio caminho e sentido é apenas uma coisa: investigarmos profunda e verdadeiramente quem somos.

 

O caminho de dentro para fora envolve identificarmos quem somos realmente e posteriormente imprimir nossa marca no mundo. Quando agimos de fora para dentro, de fato não agimos, mas reagimos. Essa ação não provém de nossa percepção de quem somos e do que queremos fazer, mas de ansiosa leitura de como os outros nos definem e daquilo que o mundo exige (a persona de Jung).

 

Dessa forma, a ação em si mesmo não é boa ou ruim. Tudo depende de onde ela brota. Se ela vier de um estímulo do mundo, estamos reagindo e na maioria das vezes, não tem conexão com a nossa essência. Uma ação que brota de dentro para fora, nos leva em direção a quem realmente queremos ser.

 

O caminho de dentro para fora exige o equilíbrio entre contemplação e ação. Por meio da contemplação e reflexão entramos em contato com nosso mundo interior. Contudo, isso por si só não é suficiente, pois poderia nos levar a um escapismo do mundo. O sentido surge quando damos uma resposta ao mundo por meio da ação. A contemplação nos permite ouvir a pergunta que a vida nos faz a cada momento. E essa pergunta só pode ser escutada de dentro para fora, porque ela é única e irrepetível.

 

Assim, ao contrário do que muitos pensam, o caminho de dentro para fora não é um caminho puramente contemplativo e reflexivo. Como dizia o monge trapista Thomas Merton: “ação e contemplação desenvolvem-se ao mesmo tempo para integrar-se em uma só vida e unidade. Tornam-se dois aspectos da mesma coisa. A ação é caridade que olha para fora, para o lado dos outros homens; e contemplação é caridade voltada para dentro, para sua fonte divina. A ação é correnteza; e a contemplação é o manancial.”

 

            O grande perigo da modernidade é vivermos na correnteza da vida e perdermos o contato com o manancial que nos nutre de sentido e propósito. Viver na correnteza é mais fácil e confortável, já que precisamos apenas nos soltar e deixar que ela nos leve para algum lugar. Experimentar o manancial exige silêncio e paciência, virtudes difíceis de serem cultivadas no contexto atual. Para chegarmos ao manancial provavelmente teremos que passar pelas águas turvas que envolvem nossa sombra. Podemos percorrer tranquilamente a correnteza da vida vestidos com a nossa máscara e persona, mas só entramos em contato com o manancial despidos e nutridos pelo nosso “si-mesmo”. E isso é o que traz sentido.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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